terça-feira, 31 de maio de 2011

"O bem vence o mal, espanta o temporal..."


Pelos poderes de Grayskullll!!! Eu tenho a força!!!!
Infanto-juvenil na década de 1980, aproveitei tudo o que a televisão podia oferecer naquele período. E para quem acredita ser a televisão só coisa ruim, só malfeitoria, só desinformação, há que se abrir a cabeça para as muitas possibilidades.

Eu assistia He-Man e Os defensores do Universo. O desenho, por mais “lentinho” que o Príncipe Adam pudesse parecer, tinha uma lição de moral no final da história, pela qual a gente sempre ficava esperando.

Alguns episódios, entretanto, era uma lição de moral o tempo todo. Muitos daqueles programas foram inesquecíveis e até esses dias guardo na parte do cérebro onde está algo em torno de 1% do infantil em mim, uma música em especial.

A temporada era a primeira. Retorno de Driele (DreeElle) era o episódio. A personagem era a garota de Trolla que apareceu pela primeira vez em Etérnia trazida pela pirâmide mágica de Gorpo. Naquele dia, quem assistia He-Man ficou assustado com a ação do mal em Etérnia, que passou a ser um lugar sombrio e amaldiçoado.

No episódio, é mostrado o poder maléfico de um chifre. Driele encontra a letra de uma canção e enquanto He-man sopra o tal chifre, ela e Gorpo entoam a canção, conseguindo reverter o quadro sinistro. A paz e a harmonia voltam a reinar em Etérnia.

Vou colocar a letra da música aqui.

Não vou colocar o Gorpo cantando porque quem assistia vai ver a letra e a música volta. E quem não assistia, não corre o risco de se contagiar com os sonhos infantis e se transformar nessas pessoas que acreditam no melhor das coisas e em desejos impossíveis. Gente assim não é muito bem vista pela sociedade. É tida assim como um tanto quanto “lentinhas” como o Príncipe Adam.

A canção:

O bem vence o mal
Espanta o temporal
O azul o amarelo
tudo é muito belo

O bem vence o mal
O fraco fica forte
E vence até a morte
Isso é o que ele faz

Harmonia, é o segredo que traz alegria
Só se vence quando há harmonia
Harmonia e amor.

Some a escuridão
Relâmpago e trovão
O bem vence o mal
Espanta o temporal
Espanta o temporal pra valer

- Ééééééééééé!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Essa comemoração não está na letra, representa a felicidade de quem estava assistindo e via o bem triunfar. Eu como me assumo um tanto quanto lentinha – se isso significar acreditar no que para os outros pode parecer impossível – até hoje, vez por outra emito esse som, quando percebo o Bem 1, o Mal 0 (zero).

Hoje, na correria desse dia com aparentemente 48 horas espremidas em 60 segundos, houve um momento, rápido, quase imperceptível, que o bem triunfou. Quem estava perto, mas com o coração de adulto fechado, nem se alterou.

Eu com o meu 1% de criança, sorri com toda a infantilidade que alguns sorrisos pedem, e a voz do Gorpo ressoou dentro de mim.
- Ééééééééééé!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Festejei, continuo festejando e queria marcar o feito. Ora, o Bem e o Mal quando acontecem acabam provocando um efeito dominó. Quando é o Bem, a gente pode ter mais uns dias assegurados de paz.

Meu diário: só eu não mudei...

No quarto da minha casa, há uma máquina de escrever Olivetti Lettera guardada como um tesouro. Na sala, sobre a escrivaninha, um computador última geração. Na máquina, quase se pode ver uma placa “proibido tocar”. Ao computador todos podem ter acesso.

Nela, comecei a teclar letra por letra até formar as palavras que transferiram  para o papel meu pensamento. Nele, há uma voz feminina do programa de antivírus que conversa comigo todo dia e uma internet bem rapidinha. Um sonho!

Não abro mão nem da minha Olivetti Letterra verde, nem do meu computador pretinho. Os dois, a uma primeira vista, podem parecer simples objetos. Mas é engano. Para além de serem patrimônios meus, eles dão indícios da pessoa que sou, de como estabeleço minha relação com o mundo, de alguns dos meus princípios básicos.

São o novo e o velho habitando em mim. Revelam minha paixão por tudo o que ajudou a construir minha história. O quanto não abro mão do que já tive ou tenho, só para ter acesso ao que virá. O passado é base da construção do presente e do futuro. E é esse processo de transferência e transformação que os dois objetos marcam em minha casa.

Sou de um tempo em que o ritmo dos acontecimentos era lento e cabiam no toc-toc-toc das teclas duras da máquina de escrever. Precisei me acostumar com a velocidade e a maciez do teclado do computador por onde os dedos deslizam. E até por isso mesmo, o ato de escrever se tornou também mais ligeiro. É o reflexo do hoje, tempo em que o ritmo de todas as coisas acelerou, ficou rápido demais.

Na minha casa, no intervalo de tempo que levou para a máquina de escrever ser substituída pelo computador, o que menos mudou foi a pessoa que antes teclava e hoje digita: eu. As mudanças nas pessoas levam mais tempo para acontecer. Até por isso mesmo é que embora até o ano passado tivesse o hábito de fazer de diário todo e qualquer caderno, agenda, folhas de papel mais bonitinha, estava extremamente insatisfeita.

Ora, como a escrita está incorporada em mim, seja no lápis, na caneta, na máquina ou no “compu”, há exatos seis meses, 15 dias, 16 horas e quatro minutos, o diário de papel deixou de me bastar. Foi quando coloquei o meu primeiro post aqui. Na época, estava sem conversar com quem não conheço há quase um ano – passei mais de 15 anos publicando textos em forma de notícia nos jornais quase todos os dias - e me sentindo meio perdida por isso.

Entrei no blogger, peguei o primeiro modelo que me disse alguma coisa, e as palavras escorreram como água pelos meus dedos. Elas fluíam. Devoradora de livros, adorei a estante arrumadinha como pano de fundo. Mas coisas arrumadas demais não se parecem tanto comigo, então comecei a me sentir incomodada: informação demais, a tela cheia, essas coisas ...

Comecei tateando no inesperado, agora, pretendo aprumar-me um pouco. Para tanto, fiz novo layout para o meu diário - mais leve espero - com as informações mais restritas ao texto e às fotos.

Como o velho e o novo moram em mim, tenho hoje no quarto da minha casa, um diário de papel guardado como um tesouro. Na sala, esse diário online pode ser acessado no computador. No de papel, quase se pode ver uma placa “proibida leitura”. No online, todos podem ter acesso.

Aqui, nesse espaço, onde costumo desaguar, e o acesso é livre, faço questão do menos ser mais, porque adoro as muitas possibilidades de interpretação. Eu digo uma coisa e deixo a cargo de quem porventura ler,  dar asas a sua imaginação.
Tudo isso para mim é poesia pura, rimas, versos e idéias que fazem toda a diferença em minha vida!

domingo, 29 de maio de 2011

Seca e migração: uma sede que nunca acaba


A história do Ceará se confunde com seca e migração. Há tempos carrego essa frase dentro de mim, a tendo exposto no início da monografia de conclusão de um curso na área de História recentemente concluído.*

Não foi ninguém que me disse. A vi sendo construída no dia-a-dia das minhas  família e cidade e do meu Estado. A certeza veio dos livros utilizados para a pesquisa.

Sou filha de retirantes. A aridez sempre esteve presente na minha casa, com as histórias de saudade, com a escassez das demonstrações de afeto, com a permanente pergunta “meu Deus por quê?”. Fugindo da seca, meus pais saíram de Maranguape e Baturité - áreas normalmente não tão castigadas nos períodos de escassez de água, mas que ainda assim adquirem condições insalubres nessas épocas – para vir morar na capital.

Estrangeiros em terra própria, portanto. Eles sequer deixaram seu “torrão natal”, como diz Patativa do Assaré, pois as fronteiras do Ceará não foram ultrapassadas. Por outro lado, saíram das suas cidades geograficamente, mas as trouxeram dentro de si. E até hoje, mais de 50 anos depois, Fortaleza não conseguiu suprir essa saudade. Eles guardam em si a terra deixada para trás e todos os significados que a aridez dessa mesma terra pode provocar numa pessoa.

O retirante, o migrante sai da seca, mas nunca a deixa, de verdade. Ela fica ali entranhada dentro dele, pronta para dizer presente sempre que qualquer lembrança for suscitada. À noite, minha mãe costumava ficar esperando o barulhinho da água da Companhia de Água e Esgoto do Ceará chegar para abrir a torneira e encher vários baldes de água para o outro dia. Lá em casa, entretanto, não havia necessidade de mais água armazenada, já que havia uma caixa d´água e uma cisterna para uma família de oito pessoas.

Para que os baldes d´água da noite, então? O guardar a água era uma necessidade surgida sabe lá Deus quando, para suprir uma sede que minha mãe havia passado. Nós não. Os baldes de água guardados da noite para o dia só possuíam um efeito: aquietar a ansiedade dela. Primeiro, porque não há como matar uma sede sentida há 50 anos; depois porque naquela casa onde vivíamos não havia demanda para tanta água.

Como é que a gente alimenta o subjetivo?

Não sei. Só com idéias e pensamentos, acho. Então, a minha mãe poderia encher mil baldes de água num só dia, e até bebê-los sozinha se fosse o caso, mas ainda assim a sua sede não tinha como ser saciada. Essa sede virou subjetividade.

Uma sede que não sinto, embora a idéia dela tenha sido repassada para mim. Nascida e criada na capital, não vivi momentos trágicos da seca, mas a minha mãe a entregou para mim como um tesouro. É herança e a levo comigo por onde for, mesmo que também, em mim ela viva nesse mundo de subjetividade onde a sede da minha mãe mora.

* Texto dedicado à Martinha. Pessoa com quem de tanto falar sobre a relevância do processo de seca e migração na construção da identidade dos cearenses, ganhou morada no meu inconsciente sempre que retomo o assunto.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Seriados americanos: CSI, constante caso de amor

Sempre gostei do ´jeitinho´ do Nick.
Acabei de reencontrar um amor antigo. Coração bateu forte. Fiquei olhando um tempo para ver se despertava as mesmas emoções de antes. Cinco minutos bastaram para colocar ok nessa questão.
Sim, ele ainda mexe comigo e faz com que todos desapareçam no momento em que surge. É, faz pelo menos uns dois anos que não o via, mas a sensação é a mesma: o Nick Stokes é o cara.

O nome é americano porque esse meu amor é o personagem da série CSI, que na tv aberta passa na Record e nos canais a cabo, na Sony. Deixei de ver o Nick quando o Grissom saiu da série. Fiquei triste.

Ora, com toda essa maturidade que me é peculiar, já havia chorado horrores quando a Marisa de The OC morreu (nem gosto de falar disso) ou mesmo quando a série acabou! Dói até hoje. Em CSI, quase me desmancho em lágrimas na morte de Warrick Brown.
- Deus, por quê?!!!

Até hoje essa morte continua sem explicação para mim. O personagem foi assassinado porque o ator estava aprontando demais. Mas e eu com isso? Ninguém pensou na dor dos telespectadores? Aparentemente não. Por isso, na temporada seguinte, a nona, saiu o Gil Grissom.
Aí, eu já nem quis saber a razão, os porquês, nem levei o caso a Deus. Achei ignorância e pronto. Deixei a série para lá.

Hoje à noite, zapeando na televisão, eis que surge o Nick e não tive coragem de seguir. Fiquei ali vendo CSI, querendo saber como seria o final e me lembrando de toda essa "vida televisina" que me trouxe até aqui.
As razões de em CSI, o meu amor ser o Nick vêm desse meu desejo de encontrar o talento e a beleza, onde a maioria não vê. Em CSI, nas temporadas iniciais, o Nick era o quarto mais querido do Grissom. E  série acontecia em volta de Gil Grissom, o sabedor de todos os segredos. Então, o Nick era quase coadjuvante de luxo. Uma história centrada nele era um custo.

Mas eu sempre gostei do jeitinho dele e adorei quando no seu último dia na série, o Grissom ter dito para o Nick: você foi o meu melhor aluno. De fato, foi. Quem assistiu a série e permanece fiel a ela sabe. Após a saída do Gil, a gente percebe no trabalho do Nick, o que sobrou do Grissom.

Rapaz, os roteiristas são sabidos demais! E a gente que acompanha esses seriados - denominados de alienados na década de 1980 - também somos bem sabidinhos. A gente percebe as diferenças.    
Por isso, me afastei de CSI.

Me afastei também porque podia. São tantos os seriados que a gente pode se afastar de um, sem morrer muito, porque tem outro logo ali. Venho pulando de seriado em seriado a minha vida todinha, porque tenho digamos esse "defeito" adquirido nesse mundo globalizado, desde sempre: adoro seriados americanos.

Não vou focar numa época ou faixa etária. Posso dizer que a minha vida toda tem sido mais ou menos assim. Ora Las Vegas, ora Dallas, ora Jornada nas Estrelas, ora Jennie é um Gênio e Macgyver. Dos desenhos, além da Disney, teve o He-Man, a She-Ra, Caverna do Dragão, Thundercats. Bom como a lista é grande  ....
Hoje, acompanho muitas outras séries, mas nada tão fascinante que me prenda. O fato é que outro dia comentando séries com um amigo e ele me indicando umas novas bem legais, desabafei:

-Ah, não tenho mais vontade de assistir. Ora acaba, ora os personagens morrem, ora vão embora. Ah, é muito chato!!!!!!!!

Ele com o peculiar doce sarcasmo:
- Amiga, não tem jeito, as séries são assim.
Eu:
- Ah, não quero mais brincar disso não.
Disse, indo em seguida conhecer True Blod que ele recomendou. Pelo menos vampiros não morrem. Ou não?!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Não me perguntes por quem os sinos dobram,..

                              Foto Gustavo Pelizzon/Diário do Nordeste
Sempre gostei de poesia. No trabalho, entretanto, minhas palavras quase sempre foram duras como o jornalismo exige. Só vez por outra conseguia fugir de tanta concretude. Devagarzinho, enfiava escondidinho nas notícias, algum verso perdido dos meus poetas.

Há aquela uma vez que comecei citando Vinicius – “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. A matéria falava das residências inacabadas numa favela, que deveriam ter sido concluídas pelo poder público, e da necessidade das famílias de ter onde morar ontem.

E há outra em que passei uma página todinha falando sobre a substituição dos sinos tradicionais nas igrejas católicas pelos eletrônicos, só para poder concluir com um verso. Apelei para o "Nenhum homem é uma ilha.." de Jonh Donne: “E por isso não me perguntes porquem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Eu dei “meus jeitos” e, até agora, em relação às notícias contadas por mim, nunca ninguém reclamou ter precisado apelar para a “interpretação do texto”, com o intuito de entender o que eu dizia. Domino a técnica de voar com os pés no chão.

Verdade nunca ter escrito um livro, não ter tido poemas, prosas ou qualquer texto literário publicados. As minhas palavras se concretizavam nos jornais. Duras, portanto, como as dores, desejos e maledicências comuns aos noticiários jornalísticos. Minha alma, entretanto, sempre inconformada com tanta aspereza, nunca deixou de ser poesia.

Por isso sofre a cada dor do outro; se abala ainda mais quando o outro é perto; e quase completamente se desfigura quando a dor é minha.

Essa alma poesia, entretanto, me deixa fraquinha, fraquinha.

Conto estórias para aliviar a dor, como sabiamente ensina o mestre Rubem Alves. Qualquer canto mais hostil de uma ave, porém, me puxa para a realidade. Não queria. Fico naquele vai e volta, vai e volta – realidade, ficção, realidade, ficção - e me aborreço.  Fico logo com a realidade e deixo a ficção para lá, porque a cada ida, o retorno se torna mais difícil.

Além disso, para estar nessa história de realidade/ficção, trocando a posição  repetidas vezes, é preciso muita fortaleza. E confesso: a minha força tem hora contada. Para participar de alguma competição de atletismo, prefiro sempre corrida de 500 metros à maratona. Odeio as situações que se arrastam indefinidamente.

Opto por dar uma arrancada, correr feito uma desesperada com o coração aos pulos, chegar quase morta mesmo que no milésimo lugar, mas acabar logo com isso. Não suporto a idéia de passar horas, dias, meses intermináveis numa situação ou competição que não se acaba nunca. Nesses casos, nem cogito a possibilidade de chegar. Vou me desfazendo pelo trajeto.

Até por isso quase ter me diluído quando encontrei Exame de Inconsciência, do Mário Quintana, pelo caminho:

- Há noites que não consigo dormir de remorso por tudo que deixei de cometer... 

Meu Deus, eu tenho cometido tão pouco nesse caminho, que é a noite a chegar na minha insônia. Não o contrário!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Da arte da resiliência ou a vida por um fio


Lia sobre as coisas simples da vida no meu primeiro encontro com a palavra resiliente. O texto de leitura agradável remetia imediatamente para o significado. A capacidade das pessoas de se adaptarem ao inusitado, ao diferente, ao adverso.

Resiliência é um conceito da física que fala sobre a capacidade de um material sofrer tensão e recuperar seu estado normal, quando essa mesma tensão acaba. Num um exemplo mais simples, basta lembrar do elástico que a gente estica e quando solta, ele volta para o tamanho original, como se nada tivesse acontecido.

Descoberta pela psicologia, resiliência passou a ser utilizada para definir a capacidade do indivíduo de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse, etc. - sem entrar em surto. É onde me encaixo: sou essa pessoa aí. Sou resiliente, tenho resiliência e tudo o mais de adjetivo e substantivo que essa palavra suscitar.

Se a situação me atropela, fica difícil, praticamente insuportável, me agarro a esse “quase” e resisto, resisto e resisto.

Como prova dou exemplo. Na escola, tinha um jogo nas aulas de Educação Física que eu detestava: carimba. A gente era obrigada a participar, mas nunca consegui ver sentido naquele jogo. Era um bocado de mulher correndo numa quadra, com uma bola de couro não mão, gritando, gritando e jogando a bendita bola para bater – carimbar – uma infeliz que também corria e gritava. Aquilo para mim parecia mais uma tourada e me sentia como um animal com um monte de imbecis me perseguindo para me bater. Era horrível!

Então, o que eu, na época, aprendiz de resiliente podia fazer?

Corria feito uma louca e me esquivava também feito uma louca para aquela bola desgraçada não bater em mim. Corria, me esquivava, corria, me esquivava, me esquivava e corria, sem uma ordem certa para correr e me esquivar, até o jogo estar quase acabando.  Resultado: passava a maior parte do jogo que tanto odiava, jogando.

Então, embora não carimbasse muito bem  – detestava bater nas pessoas só pelo prazer de bater – como resistia muito tempo na quadra, era disputada a tapas pelas equipes. O fato de só ser carimbada no finalzinho do jogo, podia ser uma vantagem. Então, para a minha equipe eu era “a atleta”. Era só apertar os botões certos:

a) Corre;
b) Desvia;
c) Agüenta mais um pouquinho;
d) É carimbada.

Passados tantos anos, o jogo do carimba e suas partidas tão doloridas, vez por outra voltam a me assombrar. Hoje, vivo em vários jogos impostos pela vida, dos quais também não quero participar. Então, apertar os botões certos é o que tentam fazer os jogadores com quais convivo. Eles sempre mandam boladas em minha direção e teclam os botões adequados para a necessidade do momento.

Vez por outra percebo a bola e consigo desviar antes que atinja meu rosto. Outras vezes não. E vou direto para o chão. Dói!

Nessas horas é que me sinto resiliente em demasia. E percebo também não ser nada bom ser resiliente em demasia.

Ora, o elástico pode até voltar para o seu ponto inicial após 10 ou 20 esticadas, mas após 100 esticadas, a flexibilidade dele se modifica. Ele retorna diferente para seu estado inicial. Se isso acontece com o elástico, que não pensa e nem sente, imagine com pessoinhas tão lindinhas, doces e meigas como eu? 

A vida traz para a gente situações adversas demais que parecem não querer ir embora de jeito nenhum. E ficam, e ficam, e ficam.

Aí meu irmão, não há resiliência que resista!

É por isso que vez por outra jogo toda e qualquer paciência fora e grito para os companheiros: 

- Ei, por favor, traz aí um surto psicológico para mim!

domingo, 22 de maio de 2011

Vou me embora pra Pasárgada


Houve um tempo em que ingênua acreditei existir geograficamente um lugar assim, como a Pasárgada, do Manuel Bandeira.

Lugar onde era possível ser  autêntico, feliz, repleto de paisagens bonitas e ter acesso a tudo o que se deseja na vida. O tempo me mostrou que lugares assim necessitam de muita força da gente mesmo para serem construidos.

Na minha vida, vez por outra consigo ir para Pasargada, onde sou amiga do rei. Entretanto, vez por outra também, não consigo encontrar a criptonita que os inimigos plantaram na minha zona de conforto e enfraqueço. Não consigo viajar. Hoje, nas minhas andanças por mim mesma, reencontrei esse meu velho amigo, Manuel Bandeira. E cansada de falar, lhe cedi a vez:


Vou-me Embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

sábado, 21 de maio de 2011

Relação de amor e ódio 2: plantão no domingo

Acordar cedo para mim - como dizia minha sobrinha quando estava começando a falar - é "muito péssimo"! 

Acordo como se não quisesse, só tomando noção do mundo bem aos pouquinhos, bem d-e-v-a-g-a-r-z-i-n-h-o! Antes das 9 horas, olhar para mim ou tentar falar comigo é me insultar. Existem as exceções claro, mas estou falando das regras.

Então é com esse ânimo todo que amanheço para cada plantão da minha vida. A sorte dos plantonistas que estão comigo é que chego primeiro e vou me acostumando à idéia. Quando chegam, já estou acostumada ao meu destino frágil e já tomei café. Muuuuiiiiiito café.

E como acabo vendo um pouco de humor em tudo, zombo muito de mim quando no caminho para o trabalho quase morro de inveja das pessoas. Bem cedinho, e elas já se movimentando para as várias partes da cidade onde vão viver seu dia de folga.

Há aquelas que madrugam na praia, as que vão passar o dia em outra cidade e, o mais comum, as pessoas que põem suas roupas de domingo para ir à missa. .

Zombo de mim porque fico assim encostadinha num canto olhando para as pessoas que não vão trabalhar com olhar tão pidão, que às vezes, quase vejo alguém parando na tentativa de me ajudar:
- Algum problema moça?
- Eu queria tanto ir para a missa!!!!!!!!!!!

Resposta dada com olhos cheios d`água. Diante do que o cristão poderia até ficar penalizado com a minha suposta abnegação à igreja. Todo plantão, agradeço a Deus porque ninguém pára e pergunta. Se o fizessem, eu iria pecar.

Porque vamos ser francos! Se alguém compadecido com meu olhar pidão arrumasse um besta para trabalhar no meu lugar, teria que ser muito rápido para conseguir ver pelo menos as minhas costas. Respeite a carreira que dava de volta para a minha casa, para a minha cama, para o meu dia de obrigação nenhuma!

Estando de folga num domingo, lá me acordo cedo, rapaz!

A história é mais ou menos assim: é mais a questão psicológica de acordar cedo num dia em que todos podem acordar mais tarde. E trabalhar enquanto a maioria não o faz. Porque plantão é plantão. A gente respeita as regras, as escalas, a tensão, mas ninguém gosta.

Tanto é que há quem diga que plantão bom é aquele com muitas notícias; há quem diga que plantão bom é o tranqüilo, que a gente luta desesperadamente vasculhando a cidade, os sites, os blogs, as esquinas, atrás de uma noticiazinha qualquer..

Eu como sou mesmo atrevida digo logo é que não existe plantão bom.

Aliás, para não me acusarem de radical, posso abrir até uma exceção. Há sim uma única possibilidade de um plantão ser "mais ou menos": é que ele não seja o meu, seja o de outro. E pronto.

Relação de amor e ódio 1: plantão no sábado

Adoro a profissão que escolhi. Os problemas existem, mas não me vejo fazendo com prazer outra atividade. Decidi ser jornalista quase criança, por volta dos 13 anos, ouvindo rádio.

Na época, começava no Ceará, os programas de rádio-serviço, com a participação da comunidade e repórteres na rua. Adorava aquela interação toda e pensei: este é o meu lugar.

Ouvia rádio diariamente sem me tocar -  ingenuidade infantil - que se havia alguém todos os dias numa rádio, significava que o veículo não fechava. E se isso era verdade, havia  sempre uma pessoa lá – independente de ser sábado, domingo ou feriado – e se isso era verdade também, essa pessoa certamente poderia ser um jornalista.

De como não fui para o rádio e fiquei no impresso, são histórias outras ainda a contar. Agora, o porquê dos coleguinhas dos programas de rádio-serviço não terem me alertado sobre onde iria me meter – dar plantão sábado, domingo e feriado – eu não os perdôo nunca, embora tenha compreendido tão logo iniciei a minha jornada. Nos meios de comunicação onde os jornalistas falam e escrevem sobre os problemas da sociedade e dos outros, pouco fala sobre a categoria. Onde falamos e escrevemos há quase silêncio sobre nós que falamos e escrevemos.

Tivessem me avisado sobre plantões talvez tivesse ido procurar prazer em outro lugar.

O problema do plantão não é o trabalho em si.

A rotina de quem está num jornal não muda no plantão. As pautas é que são um pouco diferentes  – há quem odeie ir fazer matéria na praia dia de domingo – mas esse nunca foi o meu caso. O meu dilema é saber ser sábado, saber ser domingo e saber ser feriado e ter de me acordar beemmmmmmm cedinho e ir trabalhar, enquanto “todos dormem, todos dormem”, como cantava o Renato Russo, do grupo Legião Urbana.

A dor é mais psicológica do que física e recorrente. Acontece a cada vez que o plantão acontece.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

De como ser selvagem na cidade: meus doces gatinhos

Houve um tempo em que os animais domésticos não eram criados em pufes macios nos apartamentos, comendo ração e com visitas mensais aos pets shops. Na minha infância e adolescência, gatos e cachorros eram mimados sim pelas crianças, mas viviam soltos nos quintais. A alimentação eram as sobras da família: comida de panela.

Na minha casa, havia um monte desses bichos que me levaram à improvisar análises comportamentais. Passava muito tempo no quintal, olhando, estudando o comportamento de cada um, vendo o que estavam fazendo, antecipando o próximo passo. Da observação do comportamento dos animais irracionais para a dos racionais foi uma questão geográfica.

Se estava no quintal, o objeto de estudo eram cachorros e gatos. Dentro de casa, a parentada todas e os amigos.

Dentre toda a bicharada, os gatinhos foram sempre meus prediletos. Achava-me parecida com eles. Sempre muito preguiçoso, mas carinhoso, gostador de carinho e de ficar perto da gente se esfregando. Não me esfregava nas pessoas, mas ficar perto acarinhando ou recebendo carinho, sempre foi comigo. O que me diferenciava era a mania de judiar de suas presas, numa luta desigual e selvagem. E esse comportamento dos meus gatinhos, tão amados por mim, às vezes me deixava arrasada. 

De besta, claro!

Os gatos são bichos urbanos da grande família de mamíferos carnívoros. Primos distantes do leão, rei da selva. Em comum com esse parente, garras longas e encurvadas, ótimo olfato, audição aguda e a capacidade de enxergar muito bem durante a noite. Eles também são ágeis o que lhes facilita o completo domínio sobre pequenos mamíferos, roedores e aves, base de sua alimentação.

Criança, às vezes, me surpreendia negativamente com os bichanos, esquecendo que quando capturavam a presa, estavam expondo o que ainda havia de floresta neles. No jogo da caça e do caçador, ficavam “brincando” com elas. Donos da situação punham a patinha sobre o bicho e paravam. Ficavam olhando um bommmmmmmm tempo para ver se ela se mexia. Se se soltasse, corriam atrás, pegavam novamente e, ao invés de almoçarem logo, aprisionavam novamente sob a pata e ficavam olhando ...

O bichano parecia avaliar seu poder sobre o outro, correndo o risco, inclusive, de perder seu almoço, mas se sentindo o bam-bam-bam se o mantivesse prisioneiro o maior tempo possível. Essa brincadeira rolava até cansar – ou o gato, ou a presa, ou eu – e para piorar ainda mais, havia casos em que o gato sequer tornava o brinquedinho novo sua refeição.

Ficava indignada com a suposta ruindade do meu gato e extremamente penalizada com a presa desprezada por ele. Na minha cabeça, se os dois raciocinassem, estaria o gato extremamente satisfeito com o prazer conseguido no jogo ´caça e caçador´ e a presa destruída. Principalmente se não tivesse virado almoço.

Humilhada, imobilizada num canto, com receio de correr e a brincadeira do pega-não-pega recomeçar. Sentindo-se a mais horrível da espécie. Ora, depois de tanto vai-não-vai, o bicho desiste e não a come? Será que seu gosto era ruim? Será que nem para isso serviria?

Eu ficava pensando assim e como era criança com imaginação fértil ninguém pode me acusar de louca.

Por amor aos meus gatinhos, tive que aceitá-los assim, com esse lado sombrio. Todo esse amor, porém não foi suficiente para impedir sentir mal estar em relação à essa atitude do gato e de qualquer outro animal, inclusive e principalmente, do ser humano.  Sempre detestei judiar, denegrir ou destruir animais fossem eles racionais ou irracionais. E ao dizer sempre, pode-se entender da minha infância até os dias atuais.

Como tudo muda, hoje, nem tenho quintal. E minha observação está focada hoje apenas no comportamento dos animais racionais, por conviverem comigo nos vários núcleos da minha vida: estranhos, colegas, amigos, família.

Digo com absoluta franqueza que, diariamente, ao perceber o jogo de caça e caçador praticado por humanos nos ambientes em que circulo, sinto uma saudade enorme da ingenuidade selvagem dos meus gatinhos, a Naná, a Michele, o Mimi.

Vez  ou outra chego até a sofrer por simbolicamente ser uma presa debaixo da pata de um humano qualquer. Há, dentro de mim, entretanto, uma felicidade ímpar.

- Ora, os meus gatinhos não eram assim tão ruins como eu pensava! Tem gente - ops! - bicho pior.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Da arte de ser refém de si mesma...


A dualidade da alma feminina nos permite ora sermos a fera, ora sermos a presa e, no momento em que entendermos fazer de nossas vidas o que bem quisermos. Às vezes, entretanto, a gente entra numa situação ruim e acaba ficando nela por tanto tempo que se acostuma. 

Perdemos o foco, acreditamos não ter como sair, e o pior, à procura do nosso algoz – o responsável por estarmos infelizes e apáticos – apontamos sempre o outro como o nosso maior inimigo. Tiramos de nós o poder de decisão.

Ficar infeliz, mas não perder o pouco que se conquistou? Sair de mãos abanando e uma dor permanente no coração? Sair esvaziado até de si mesmo? Perguntas, perguntas e mais perguntas sem que, contudo, se tenha esperança sequer de respostas fáceis e em curto prazo. São estradas estreitas, longas, cheias de curvas sinuosas, as que levam para a saída.

Mais fácil, então, fechar os olhos para a possibilidade de nós mesmas sermos nosso maior inimigo. Primeiro de tudo porque, a uma primeira vista, não dá para acreditar que nós tão carentes de socorro, nos neguemos qualquer auxílio. Depois, nos meandros da alma feminina, há sim o aspecto guerreiro, mas há sempre também, a menina carente de amparo, de proteção, de segurança.

Há anos a sociedade credita à mulher um modelo único: frágil e dona-de-casa tutelada. Justamente por isso, por mais moderna, dinâmica e atual que se seja, há ainda o risco de passar a vida inteira esperando uma situação ideal, um amor eterno, o maior e melhor emprego do mundo, a tão sonhada maternidade e as outras muitas possibilidades 'maravilhosas'.

Na busca, a maioria acaba se decepcionando muito, pois o ideal possui estrada ainda mais estreita e sinuosa do que àquelas da saída. Para evitar decepções e falhar com a dita sociedade, a mulher aceita então qualquer mínimo só para se adequar aos papéis previamente escolhidos para ela. É o caminho mais fácil.

Às vezes, tem sorte e vive feliz quase para sempre. Às vezes, entretanto, entra numa roubada tão grande que esquece os poderes de Mulher Maravilha e age como a menininha frágil querendo um bom e maravilhoso colo.

Não há como negar que um bom e maravilhoso colo é sempre uma das melhores opções do mundo para a gente ficar bem. Cabe, entretanto, ressaltar que esse aconchego também possui as suas armadilhas. Nunca é demais uma olhadinha básica na folha corrida de quem ou do quê queremos fazer o colo como morada, antes de nos acomodarmos definitivamente nele.

Há ainda um perigo maior. Lamento dizer, mas quando o adulto age como criancinha querendo colo, paga um preço alto por isso. O colo é muito aconchegante – gostooooso! -, mas possui também a característica de limitar o poder de escolha. Fica mais ou menos assim: era uma vez a liberdade de decidir, era uma vez a possibilidade de discordar, era uma vez qualquer ação individual sem o amém do nosso “coleiro”.

O adulto criança vira refém, vira presa.

E ninguém nasce com a pretensão de ser a presa ou refém de alguém. É ruim.
- O que você quer ser quando crescer?
- Eu quero ser “uma grande refém”.
Isso não existe!

A liberdade é desejo intrínseco do ser humano. Adulto que pede colo transfere seu poder de escolha para quem o está aconchegando.

Então, na existe dúvida. Há que se pegar estrada, mesmo a mais sinuosa e estreita. Antes, porém, deve-se retirar do armário e colocar na bolsa, os poderes de Mulher Maravilha, para o caso de necessidade.

Afinal, quando voltar é triste e permanecer também, a única certeza para voltar a ter uma vida digna, é a urgência de seguir.

domingo, 15 de maio de 2011

Criam-se raízes no mar?


Nascida e criada na capital cearense, com tanta gente, tanta terra, tanta casa, tive dificuldade de identificar minhas raízes e fincá-las. A cidade é muito grande, há tanto chão e diversidade que ficamos nos perguntando qual será a nossa. 

No meu caso, bom explicar que sou nascida e criada numa Fortaleza marítima, mas no subúrbio dela, onde a gente só faz sentir a brisa leve de um mar que sabe existir, mas não consegue enxergar.

E apesar de no meu caminho diário, manancial de água só ter lagoa mesmo, decidi permanecer nesses bairros distantes do mar e das áreas onde estão os núcleos nervosos da cidade até hoje. Há um montão de explicação para esta escolha. A não ser pela distância enooooooorrrme de boa parte dos locais interessantes da cidade – praia, cinema, barzinhos charmosos e shoppings - morar nesses bairros tem muitas, mas muitas vantagens.

Para quem gosta de tranquilidade, há ainda muitas árvores, pássaros, e se consegue acompanhar o vôo de borboletas amarelas e multicores. Os passos são menos apressados em ruas largas. Os vizinhos se conhecem. E no fim de tarde, as pessoas colocam as cadeiras na calçada onde conversam por intermináveis horas; as crianças brincam nas ruas e tudo isso torna concreto na cidade, um monte de costume do interior. Lógico que nesses locais não há como dispensar as coisas da modernidade: o telefone celular impera, a tv à cabo também, há transporte, chuveiro elétrico para quem interessar possa.

Mesmo assim, às vezes, tem-se a impressão de não se estar num grande centro urbano como as capitais costumam ser, mas numa cidadezinha qualquer do interior, bem pequenininha. Eu gosto dessa idéia pela sensação boa de aconchego que traz.

Talvez até por isso mesmo, ter titubeado quando precisei definir para mim onde estavam as minhas raízes neste mundo.

Haja perguntas sem respostas!

O que me identifica com a cidade a ponto dela não querer sair? Para onde corro desesperada quanto as perguntas são muitas e preciso da minha cabeça quieta para pensar? Em qual local da casa, do bairro ou da cidade me ponho quando necessito renovar a minha pessoa, a minha identidade, para então recomeçar? .

As respostas não vieram de imediato no meu torrão natal: o subúrbio.

Foi preciso atravessar a cidade todinha e colocar os pés na areia do mar para todas as dúvidas serem dirimidas: as minhas raízes estão fincadas aqui. Foi ver o mar e compreender. Há em mim, uma faixa litorânea que vez por outra grita, quando preciso retornar para quem sou eu.

Num mundo de tanta gente carente de afeto e repleta de problemas para serem partilhados – e eu me insiro nesse contexto - é necessário termos nosso eu fortalecido para sermos aconchego, respostas para essas pessoas, sem que, contudo, nos percamos.

Fincar raízes numa faixa de praia banhada de instante em instante pelas ondas do mar, completamente instável, pode parecer loucura. Como fixar raízes em local móvel?
A resposta é simples. Isto é a vida: hoje legal, amanhã ruim, hoje legal, amanhã ruim e, nunca, mais nunca mesmo, necessariamente nessa ordem.

Completamente instável, surpreendente, errante, mas enormemente bela.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Aos mestres com carinho


“Mestre não é aquele que ensina, mas aquele que de repente, aprende”. Foi ler a frase de Guimarães Rosa e modificar a forma de ver o processo de aprendizagem. 

Então ninguém possui o conhecimento absoluto e, sendo senhor de qualquer assunto, pode então se surpreender com nova s formas de aprender? E se a novidade vier de qualquer pessoa na rua, sem a instrução formal própria dos mestres?

Gostei da idéia e adotei na minha vida. Embora muito ciente do outro, só tenha relembrado a relevância dessa sabedoria dias atrás. Ora, eu então, que tive o privilégio de na educação básica ter uma professora – a Dona Margarida – que me possibilitou a crença nos sonhos, não tinha encontrado outros mestres pelo caminho e, não tinha eu mesma, de repente aprendido? 

Na vida mesmo, a lista é tão grande que não cabe em livro comum. Agora, se eu misturar vida pessoal com profissional, os nomes aparecem na minha cabeça, já com divisões por etapas. È colocar nome, sobrenome na pasta e arquivar. No curso de Comunicação Social, Agostinho Gósson e Ronaldo Salgado foram meus mestres. Os dois me ensinaram técnica de reportagem e os meandros do jornalismo. O Ronaldinho com aquela calma própria das pessoas sabedoras de tudo e que, num determinado momento, avançam sobre a presa – no caso, a fonte – e dão o bote. O Agostinho, com quem tive mais disciplinas, o início, o fim e o meio.

Sou uma cópia descarada do Agostinho. E ele que me perdoe por andar por aí na cidade uma imitação sua tão mal terminada. Ele disse, guardei uso, digo e faço. De tal maneira que hoje, anos luz após o curso, ainda lembro das histórias que contava do como fazer a fonte se descontrair, se sentir segura e a gente fazer uma entrevista de respeito.

Hoje, emocionam-me os estudantes dele de estágio ou orientados da monografia que chegam à redação. Deles, renovo um pouco do Agostinho em mim.

Digo logo, voltando a ser a estudante de mil anos atrás:

- Ele foi meu professor.

A camaradagem está feita. Observo se o estudante possui as características dele ou do Ronaldo – normalmente quem estuda na Universidade Federal do Ceará (UFC) e busca a redação dos impressos é apaixonado por um dos dois – e tento me realimentar das lições deles através desse sangue novo. Aliado a isso, há a preocupação de que nas notícias que porventura leiam no jornal onde trabalho saibam ver meu diferencial. Eles não podem mais me reprovar por falta ou notas baixas, mas prefiro desconhecer que um dos dois condene um trabalho feito por mim. 

Já na redação, quem complementou meus estudos pós-graduação, foram meu dois Chefes de Reportagem, a Izabel Pinheiro e o Carlos Célio de Souza. Deus sabe como cada um me disse o que fazer, a melhor forma de fazer, que um me ensinou ética, que outro me ensinou as técnicas de entrevista e reportagem, enfim, os dois construíram a profissional que sou. Não sou mais repórter deles, como também deixei de ser aluna do Agostinho e do Ronaldo, mas aprendiz dos quatro continuarei sempre.

Nos últimos dias, percebi continuar meu aprendizado para além dos livros didáticos e dos anos de experiências profissionais. Aprendo com os meus contemporâneos que me ensinam o melhor lead e me sugerem pautas e com a ‘new-generation´ de repórteres ainda engatinhando na profissão, que vez ou outra me iluminam. Aprendo com quem fica e com quem vai. Cada um no seu cada um.

Já os estagiários me mostram suas competências e revelam seus sonhos. Tenho aprendido também com os multimídias, os novos jornalistas que chegam à redação fazendo entrevistas, imagens, fotos e descarregando no “compu”.

Façamos então um acordo: meus mestres são as pessoas que, mesmo num momento mínimo, passando pela minha vida, deixaram algo de si; levaram algo de meu. A eles dedico os obrigados e meus dias.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O valor das pequenas coisas


Levantar-se pela manhã, escovar os dentes, tomar banho, fazer isso tudo sozinho, sem depender do outro. Sem entrar no mérito da relevância dos outros nas nossas vidas, o fato é que essas ações bem comuns no dia-a-dia viram produtos de luxo por demais desejados quando, por alguma razão, ficamos impossibilitados de fazê-las.

Basta a gente ficar sem isso um diazinho que seja para perceber o valor dessas pequenas coisas. Valor que há décadas atrás o padre Roque Schneider, das Edições Paulinas, já havia me ensinado no seu livro – O Valor das Pequenas Coisas – onde falava para a juventude da época (a primeira edição é de1987), mas que na pressa cotidiana, eu havia esquecido.

Bastou uma noite tooooooodinha, sentada numa cadeira espreguiçadeira, o único improviso de conforto disponível num leito de hospital onde estava uma pessoa querida. Foi o tempo necessário para ainda na madrugada precisar segurar o grito forte antes de sair da minha boca: eu queroooooo a minha camaaaaaaaaaaaaaa! Serve a rede, please!!!!! Eu quero meu sofáááááá!!!. Eu quero a minha casa. 

O escritor Rubem Alves diz escrever sobre muitas coisas, crianças, parques, saudades, escolas, crepúsculos, enfim, um bocado de temas, mas que seu leitor não se deixe enganar, essas entidades, todas elas, traçam as linhas do rosto dele. Sem nenhuma pretensão de me colocar sequer em qualquer proximidade com o mestre, quero só usar a sua frase para explicar porque a aparente mudança de assunto.

A minha cabeça funciona sempre a mil por hora e uma das dificuldades que tenho com meus amigos é lhes fazer seguir a linha do meu pensamento. Assim, a gente começa a conversar sobre o futuro e quando eles menos percebem, continuamos nossa conversa, mas eu voltei para o presente e eles ficaram lá no futuro, perdidos. Aí, eles voltam também e a gente se reencontra.

Neste sentido, como meus textos revelam também as linhas do meu rosto, portanto, o funcionamento esquisito da minha cabeça, o encontro aqui não é para falar das dores sentidas quando se acompanha um ser amado a um hospital. Isso dá uma série, um livro, coisa que ainda não me atrevo a fazer. A conversa aqui é sobre o valor das pequenas coisas.

Naquela madrugada no hospital – ou em situações de angústia similares no meu dia-a-dia - minha intenção era sair gritando feito uma louca – eu queroooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!. Negociar com a vida, como as crianças fazem com os adultos quando querem algo no supermercado:

- Compra aquele biscoito para mim!?
Adulto: não, você não pode.
- E aquele?

Aí, lhe é dado um sonoro não e a criança retirada de perto da prateleira, sendo puxada pela mão. É como se um fosse um soco de realidade na bichinha que sai gritando: eu queroooooo!!!!

Foi o que vida fez também comigo naquela escuridão. Como resposta à minha súplica - veja bem eu não gritei, mas ela sabia da minha necessidade do meu querer por algum tipo de conforto ‘de verdade´ ou a minha vida antiga de volta -, e não me deu. Me deixou ali naquela madrugada escura de uma vida péssima.

O que pude fazer, então, naquela escuro amanhecer?

Me conformar. Ir para a minha espreguiçadeira “tão liiiiinnnda” e ficar pensando no Padre Roque.

- Bem que o Senhor me avisou!

A frase acima foi dita em voz alta por mim, que também pensei:

- E eu que andava me sentindo tão desconfortável naquela minha cama tão macia!

Cama na qual só após conseguir me deitar nela novamente é que chorei. De felicidade.

Pode parecer besteira, mas há momentos em que saber da segurança de uma cama esperando pelo seu corpo fatigado, é tudo o que se precisa para afagar a alma e aquietar o coração.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

1BomProfessorMeEnsinou


A ong Todos pela Educação está com campanha pela valorização dos professores nas redes sociais. Os usuários do twitter devem contar suas experiências sobre bons docentes com a expressão do título desse post..

Me lembrei imediatamente, da Dona Margarida, minha professora do sexto ano. Não havia entre nós muita proximidade. Aí, um dia, de uma tacada só, ela acabou com a minha invisibilidade na sala de aula e determinou ali, o que eu viria a fazer no futuro: escrever.

Ela havia passado como exercício de casa, assistir o jornal na tv e fazer redação sobre uma das notícias. Assisti o jornal e me revoltei com o aumento do preço da carne. O tom do repórter e do apresentador era de raiva com o ocorrido e eu também não gostei.

Não gostei e fiz a redação dizendo isso!
- Ora, o preço do quilo da carne ter aumentado fará o produto sumir de sua mesa. É um absurdo, um absurdo, o fim do mundo!

Não sei se a minha preocupação era com a redação ou com a possibilidade da carne não entrar lá em casa nunca mais, porém, Dona Margarida gostou do texto. Leu em sala de aula, me disse que tinha ficado muito bom, que eu tinha jeito para coisa.

Fiz silêncio. Fiquei vermelha, agradeci gaguejando, com vontade de me esconder debaixo da cadeira, mas não pude. Até aquele dia, ninguém havia me dito algo semelhante. Às vezes, adulto ou criança, a gente precisa de alguém mais velho, com maior autoridade, com maior respeitabilidade, dizendo sim para nossas qualidades ou nossos sonhos. Só assim podemos assumir acreditar neles também.

Eu acreditei nela que fez a diferença na minha vida. E não é isso a que se propõe a educação formal? Fazer a diferença? Tivesse a Dona Margarida me dado 10, sem dizer nada para mim, muito provavelmente, teria continuado invisível pelo mundo.

Esse momento com a professora ficou como marco, me incentivando vida a fora. Toda vez quando achava que não ia dar certo, voltava a Dona Margarida à minha cabeça: você tem jeito para a coisa.

Dali até a minha primeira matéria publicada num jornal, foram anos infinitos. O caminho não foi dos mais fáceis, como não têm sido até agora: jornalismo é profissão complicada, embora tenha seus momentos bonitos.

Um dos mais intensos foi quando muitos anos depois, já como repórter de rua, encontrei a Dona Margarida. A pauta era numa ong lá pelos lados da Barra do Ceará. A matéria sobre ações de inclusão para um monte de crianças de baixo poder aquisitivo para que pudessem ter algo onde se sustentar para tentar construir a diferença em suas vidas.

Já tinha terminado as entrevistas e me dirigia para a saída, quando a vi. Voltei.
- Dona Margarida?!
Ela levantou os olhos verdes, grandes, rodeados por umas bolsas enormes que eu reconheceria em qualquer lugar.
- A Senhora já foi professora de Estudos Sociais?
- Fui.
-Eu fui sua aluna. Lá no Ginásio Nordeste, a senhora lembra?

Minha pergunta sobre a lembrança era do colégio, não de mim. Ela me disse lembrar da minha pessoa – o que não creio, era tempo demais, mas ainda assim gostei do carinho – e me disse também estar aposentada, fazendo aquele trabalho por causa das crianças.

Até àquela hora, eu estava até parecidinha com gente na frente dela.
- Blá, blá, blá, blá, blá, blá, estudei; blá, blá, blá, blá, blá, blá, me formei; blá, blá, blá, blá, blá, blá, eu só sou jornalista por causa da Senhora!

Foi a última frase digna que consegui dizer antes da menina trocar de lugar com a mulher. Cai num choro compulsivo.
- Eu sou jornalista porque houve um momento em que a Senhora olhou para mim e disse ser possível. E o melhor de tudo Dona Margarida – isso dizendo, chorando e soluçando porque mico para ser mico, tem que ser público, com um monte de gente olhando - é que a Senhora está fazendo a mesma coisa para esse monte de meninos!!

Ela como sempre muito tranquila: se acalme, minha filha.E eu buá, buá!
Foi uma das cenas mais ridículas que passei na minha vida, mas foi bom. Até hoje não acredito ter sido possível agradecê-la o incentivo.

Então, esse conversê todinho, é só para registrar ter tido sim um bom professor, mas a história ser comprida demais para 140 caracteres. 

sábado, 7 de maio de 2011

Praia de Iracema, reconstrução já! - O Paranjana


Porque hoje é sábado e, como dizia o eterno Vinícius de Moraes, no “Dia da Criação”, “há um beber e um dar sem conta”, e “há a perspectiva do domingo” é que cumpro uma promessa feita a uma amiga, para voltar ao tema “Praia de Iracema – Reconstrução Já!”. E claro, para contar mais uma das muitas peripécias de nossa permanente boemia naquele local.

Primeiro, a necessidade de deixar explícito  a relevância da Praia de Iracema para além das questões de boemia, festanças, intelectualidade.  Tudo isso é importante. Mas há nessa praia também muito do berço histórico de Fortaleza: foi só dos pescadores, foi só dos banhos de mares, foi porto, foi ponte, enfim, tem sido tudo enquanto a história da cidade necessita no seu processo de construção.

As minhas vivências na área acontecem da década de 1990 para cá. Então, o que vivi ali, foi ir ver o pôr do sol na ponte, compreender qual das duas é a ponte dos ingleses, tomar uma cervejinha no final da tarde no Cais Bar, ir para o Estoril, essas coisas que nos anos 2000, foram perdendo o sentido de acontecer devido à insegurança, à precariedade do que se podia oferecer. Só quando o Dragão do Mar começou a se fortalecer como espaço da cidade é que as começaram a voltar para a PI tradicional e para aquele entorno do Dragão.

E foi assim que eu e mais três amigos numa dessas noites após a “Farra na Casa Alheia” do Amicis, fizemos uma das nossas. Na festa, bebemos pouco, mas ouvimos muito o Roberto Carlos. Estávamos todos, então, muito apaixonados um pelo outro – como somos até hoje – mas com muita preguiça de caminhar até o estacionamento, onde estava o carro da minha amiga.

A moto do então candidato a namorado dela estava bem perto. Ele subiu na moto e foi devagarzinho deixar a gente no estacionamento. E nós três acompanhando ali, perto da moto, feito três abestados.

Começamos a dizer:

- Seu moço, leva a gente?!

Ele:

- Não cabe não!

Nós:

- Cabe. A gente se espreme.

Dito e feito. Eu sentei na parte onde fica o tanque de combustível. Ela entre nós dois. E o nosso outro amigo no pedacinho que restou da garupa.

Começamos então a nos dirigir, os quatro sobre a moto, rumo ao estacionamento, que ficava um perto/longe do Amicis.

Foi muito bom. A gente ria muito, gritava muito, gritava muito e gritava muito. Gritos de alegria, de aventura, de felicidade, né?.

As pessoas que também estavam na Praia de Iracema, vendo a marmota, começaram a gritar.

- Íííí!!!!
- Uuu!!!

Nós nem aí! Só indo bem devargarzinho para o estacionamento.

Aí  teve um gaiato que nos fez perder a pose e cairmos literalmente na risada. Sem descermos da moto, claro:

- Parece o Paranjana!!!!!!  Deixa eu entrar moço?!!!

Nós:

- É o Paranjana, mesmo! Está lotado. Não dá para entrar não.

Risada geral de todos que estavam na rua numa das muitas madrugadas inesquecíveis da PI.

A gente parece que estava adivinhando. O Paranjana era o nome de uma linha de ônibus que rodava quase toda Fortaleza, interligando quatro terminais.  Ela tinha como fama justamente rodar lotada, com o pessoal espremido dentro. Agora em 2011 foi extinta, tendo sido transformada em quatro novas linhas interligando os terminais mais próximos um do outro.

Para além da farra na casa alheia, o grito de quem estava àquela hora na rua, mostrou sem querer, como a linha era conhecida e já folclórica na cidade. Além disso, colocou o nome Paranjana, no rol da calçada da fama da Praia de Iracema.

Naquela noite, sem que soubéssemos, estávamos desenhando nós mesmos os nossos marcos históricos na cidade.

A linha antiga ficou só na memória dos usuários acostumados a ela, na lembrança de quem estava na Praia de Iracema naquela noite; e na nossa memória tão fatigada.

Para nós que fizemos ali a viagem mais curta e mais gostosa das nossas vidas, cabe lembrar e parafrasear – com todo respeito – o Carlos Drummond:

- Hoje, o Paranjana é só um retrato na parede. Mas como dói.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O encontro: se eu pudesse viver minha vida novamente

                                 “Se eu pudesse viver minha vida novamente...”

Foi o que ele me falou ao chamar minha atenção.

Um livro!!!!!!!

Estava quase escondido em meio a tantos da livraria. A capa amarela, o título branco, com um misto de pergunta e possibilidade batendo em minha cara. Em verde, o nome do autor: Rubem Alves.

Meu sorriso se abriu de imediato.

Sim, era isso o que eu mesma estava me perguntando sem saber e, a partir de então, a urgência de completar os pontinhos dominou .

Foi o tempo de ir ao caixa para o livro ser meu.

Dei logo graças a Deus por ele ser fino, embora o fato de não ter ilustrações pudesse me atrasar na busca pela resposta. Quanto mais espaço, mais letras em carreirinha.  A partir de então, não importava mais nada, a não ser a necessidade de lê-lo compulsivamente.

Foi vê-lo e a intuição chegou: a resposta, a palavra que procuro está aqui.

Ora, ora, ora, meu atual autor preferido, Rubem Alves, me traiu gostosa e perversamente. Justamente, na manhã do sábado onde havia percebido a possibilidade de desfazer o mal da perdição que a bruxa das bruxas havia jogado em minha vida.

Primeiro, ele colocou o poema de autoria até hoje discutível, conforme se explica na edição, ora atribuída a Jorge Luís Borges, ora à Nadine Stair. O poema que o levou a dar título ao livro, esse meu novo amigo.  

“Se eu pudesse viver novamente...”

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e produtivamente cada minuto da
sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida,
só de momentos,
não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte
alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva
e um para-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço
no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua.
Contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo."
 

Depois, já no primeiro texto, Rubem Alves, revelou o final. Ele disse ter ficado comovido ao ler o poema pela primeira vez, pela mistura de sabedoria e tristeza. E já aí deu indícios para respostas das minhas  perguntas todinhas e ainda me deu a responsabilidade de investigar qual seria a construída por mim, para preencher os meus pontinhos.

Ora, pensei ter de passar o livro todo numa conversa absolutamente linda, apaixonante e doída com o autor, para depois de muita inquietude e pensamentos loucos, atingir, enfim, o meu intento: encontrar minha alma que vagava.

Não foi assim.

Rubem foi breve. Lamentou a tristeza do amigo autor e respondeu:

- “Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.”

Eu tive muito ódio, mas meu pensamento foi rápido:

- Eu também droga, eu também!!!!

E olhe que da lista de feitos da vida do Rubem Alves eu só posso assinalar como tendo sido também conquistas minhas o plantar árvores, o ter muitos amigos e o gostar de brincar.

Bom, pelo menos valeu o sábado, a compra – é o melhor livro do mundo, mesmo o final tendo sido revelado no primeiro texto –  e o reencontro com as minhas palavras perdidas.

Meu corpo e minha alma se uniram num abraço.